Desta vez, a Sãozinha telefonou com quinze dias de antecedência. Deste lado da linha, ainda balbuciei : - “Mas Sãozinha, sei lá eu o que faço amanhã, quanto mais!”...
A Sãozinha cortou, célere:
-“Arranja-te! Tens-me aí no dia tantos de tal!” ...
A dar ordens a Sãozinha não admite réplica. Arranjei-me, portanto. E no dia aprazado, a Sãozinha aí estava extrovertida e ansiosa como nunca:
-“Tenho que te contar, esta não podes perder!..” – atirou-me, mal se dependurou, em beijinhos melosos, agarrada ao meu pescoço.
Estranhei. As grandes “revelações” costumavam vir depois, já quando ela extinguira o fogo e os corpos pedem confidências. Mas desta vez não. Exigiu que me sentasse...
- “Imagina tu, que o meu vestido de seda verde está todo estragado!” ...
Vocês, sabiam?!... Eu nem imaginava! Mas não tive tempo para protestar. Nessa altura, a Sãozinha já ia em velocidade de cruzeiro. E, de uma fiada, estendeu o drama completo do vestido de seda verde, “que lhe custara bom dinheiro”...
Afinal, o vestido da Sãozinha acarretou consequências políticas profundíssimas. Como sabemos, os grandes lances da história, definem-se em pequenos detalhes. Como o tamanho do nariz de Coleóptera, por exemplo.
Tentarei explicar este verdadeiro drama histórico que o vestido da Sãozinha provocara...
O "status quo" da cidade andava estrategicamente à procura do verdadeiro líder da oposição. Para quando, no País, a alternância chegasse, os interesses locais permanecerem os mesmos, como sempre. A escolha recaiu sobre um jovem professor do Politécnico, natural da cidade, com mestrado fresco, numa dessa múltiplas engenharias, que por aí proliferam...
Filho de taverneiro, porém, haveria que lhe limar modos e maneiras. Tarefa a que a Sãozinha se prestou com devoção e empenho...
E eis o drama: numa selecta recepção, com a Sãozinha a tiracolo, o novel iniciado, sustentáculo futuro dos pergaminhos da cidade e dos egrégios valores dos seus cidadãos, “tropeçou” no atavismo da sua condição de filho de taverneiro - num trago apenas emborcou o cálice de vinho fino, sacudindo para o lado as últimas gotas, como se um rural fosse na velha tasca, donde saíra...
Azar dos azares... Apanhou em cheio o vestido da Sãozinha!...
- “Aqui mesmo!” – diz ela, segurando-me o indicador e esfregando no mamilo esquerdo; - “uma nódoa enorme”- acrescenta, alargando o gesto à macieza de todo o seio...
-“Vê lá tu, aquele burgesso! E eu que depositava nele tantas esperanças...”, suspira inconsolável.
E, num doce revirar de olhos, no mais perfeito “rosa rosae” de seus lábios:
-“Ainda se eu tivesse lá, meu Príncipe!...” - suspiro que entendi como subtil convite a futuro líder da oposição local!...
-“Mas não tens, Sãozinha! E se tivesses, terias que me fazer bispo!...” – soltei eu numa gargalhada.
A Sãozinha, comigo, não se importa de perder. E, entrando, no meu jogo:
-“Báculo já tu tens, meu depravado!...” - rematou ela atirando-se ao fecho das minhas calças.
O dia estava quente. A minha amiga banqueteou-me com entrada de presunto e melão polvilhado de gelo moído, seguida de uma salada de bacalhau. Essa mesmo: a célebre salada de bacalhau...
Uma especialidade, Sãozinha dixit...